Categoria: Pratica Ritual

Tempo de leitura estimado: 15 minutos


Introdução

O Terceiro Livro do Grimorium Verum - chamado Segredo dos Segredos - é onde o grimório para de descrever e começa a instruir. Aqui estão as instruções operativas completas: como preparar cada instrumento, como purificar o operador, como montar o espaço ritual, como realizar as invocações e como encerrar o trabalho.

É o livro mais longo e mais detalhado do grimório - e o que mais revela sobre a filosofia de fundo do sistema. Cada detalhe tem razão de ser; cada instrução é parte de um protocolo que foi desenvolvido e refinado ao longo de gerações de prática.


1. O círculo

Antes de qualquer invocação, o espaço precisa ser definido. O Grimorium Verum instrui que o círculo deve ser desenhado com carvão vegetal no chão, com o sigilo do espírito que se pretende invocar no centro.

As quatro direções cardinais têm regentes específicos que precisam ser reconhecidos:

  • Leste: Lúcifer (em algumas versões: Magoa ou Orieus)
  • Norte: Amaymon
  • Oeste: Astaroth (em algumas versões: Bayemon ou Paymon)
  • Sul: Belzebuth (em algumas versões: Egym)

O texto menciona também a tradição dos quatro reis das direções conforme os "doutores hebreus" - Samuel no Leste, Azazel no Sul, Azael no Oeste, Mahazuel no Norte. Essa variação entre as versões do grimório reflete as diferentes tradições que o alimentaram.

O círculo cumpre uma função dupla: delimita o espaço sagrado e protegido do operador, e orienta a chegada do espírito. Entrar nesse espaço sem ele preparado é, segundo a lógica do sistema, expor-se sem proteção às forças que estão sendo chamadas.

Há ainda a instrução para que as letras A.D.A.M no círculo sejam substituídas pelas iniciais do nome do operador - o mesmo princípio de personalização que aparece no medalhão principal. O círculo não é genérico: é construído para o operador específico que vai operar dentro dele.


2. A preparação dos instrumentos rituais

O Grimorium Verum dedica uma parte considerável de sua instrução à fabricação e consagração de cada instrumento ritual. Nenhum é improvisado; cada um tem seu material, seu momento e sua consagração específicos.

A faca

Deve ser feita de novo aço (virgem - nunca usado antes), com cabo de madeira, fabricada no dia e hora de Marte, com a lua crescente. O texto admite a alternativa pragmática: comprar uma faca nova, entrando na loja no dia e hora indicados, para depois lavá-la e incensá-la três vezes.

A gravação é essencial: o nome AGLA deve ser inscrito na lâmina. AGLA é uma das notariquon mais conhecidas da tradição cabalística - uma abreviação do hebraico Atah Gibor Le-olam Adonai ("Tu és poderoso para sempre, Senhor") - e sua presença na lâmina vincula o instrumento à autoridade que torna a operação possível.

A faca deve ser longa o suficiente para cortar um jovem cabrito em um único golpe - uma especificação que indica que este instrumento era usado em sacrifícios rituais como parte das operações mais completas do sistema.

A lanceta ou buril

Também de aço virgem, fabricada no dia e hora de Júpiter ou Mercúrio, lua crescente. É o instrumento de gravação - com ela se inscrevem os caracteres nos outros instrumentos. O Grimorium Verum instrui que sobre ela se recita uma conjuração específica pedindo que o instrumento "obtenha perfeição para nós em todas as coisas que desejamos alcançar, sem trapaça, falsidade ou engano."

A varinha

De um galho de aveleira que nunca deu fruto, cortado em um único golpe, no dia e hora de Mercúrio, lua crescente. Após o corte, são gravados caracteres específicos com o buril da arte. A aveleira é uma madeira com longa tradição de uso em instrumentos de comunicação com outros planos - varinhas de adivinhação, bastões rituais - o que faz sua escolha no Grimorium Verum parte de uma tradição mais ampla.

O bastão

Também de aveleira, mas preparado no dia e hora do Sol. A distinção entre varinha e bastão - e entre Mercúrio e Sol como suas correspondências - indica funções diferentes: a varinha como instrumento de direcionamento e comunicação; o bastão como instrumento de autoridade e manifestação de poder.

O pergaminho virgem

Pode ser de pele de cordeiro, jovem cabrito ou outro animal virgem. Depois de borrifado e fumigado, recebe a inscrição do nome AGLA. O texto admite explicitamente o uso de "papel virgem mesmo" para operadores que não têm acesso ao pergaminho tradicional.


3. A oração preparatória e a purificação do operador

Antes do ritual, o operador passa por um processo de purificação que o Grimorium Verum descreve com precisão.

A aspersão é realizada com água consagrada através de uma oração específica que invoca Deus e pede que a água seja "benéfica para corpo e espírito e que todo engano se afaste." Esta oração tem estrutura cristã explícita - referência ao êxodo do Egito, ao Mar Vermelho, à purificação dos pecados. É um dos elementos que revelam o sincretismo característico dos grimórios medievais: o operador usa a estrutura cristã de purificação para preparar-se para um trabalho que a Igreja condenaria como heresia.

A fumigação usa um incensário com carvão em brasa. As essências são colocadas sobre os carvões enquanto se recita uma invocação chamando os anjos para "fazer nosso trabalho ser completado."

A oração para aspersão e fumigação deve ser seguida pelos sete salmos de penitência - os Salmos 6, 31 (32), 37 (38), 50 (51), 101 (102), 129 (130) e 142 (143) - e por outros salmos específicos conforme o trabalho.


4. As invocações: estrutura e sequência

O sistema invocatório do Grimorium Verum segue uma lógica de escada hierárquica. O operador não vai diretamente ao espírito que deseja - segue o protocolo da hierarquia.

A invocação de Scyrlin é o ponto de entrada. O texto instrui que todos os outros espíritos dependem de Scyrlin como mensageiro, e que ele pode forçá-los a vir e aparecer mesmo contra a vontade deles, "como tendo a autoridade de um imperador." A invocação de Scyrlin deve ser escrita atrás do seu sigilo, no pergaminho virgem.

As conjurações dos três imperadores - Lúcifer, Belzebuth e Astaroth - são apresentadas separadamente, cada uma com sua fórmula específica. O operador invoca o imperador cuja jurisdição cobre a entidade que pretende contatar.

A conjuração geral dos espíritos inferiores cobre os 18 espíritos e as entidades subordinadas. No lugar do "N." indicado no texto, o operador insere o nome do espírito específico que está convocando.

As conjurações por dia da semana associam espíritos específicos a cada dia:

  • Quinta-feira: Silcharde
  • Sexta-feira: Bechaud
  • Sábado: Guland
  • Domingo: Surgat

Cada uma dessas conjurações é uma fórmula de chamada específica para o espírito correspondente ao dia - indicando que o sistema prevê trabalho regular e contínuo, não apenas operações ocasionais.


5. A manifestação e o diálogo

Quando o espírito se manifesta, o Grimorium Verum instrui o operador sobre como conduzir o diálogo. O texto é cuidadoso aqui: o espírito que aparece pode não se apresentar imediatamente com sua forma verdadeira. Pode tentar assustar, confundir ou testar o operador.

A instrução é clara: o operador deve manter sua posição dentro do círculo, permanecer firme, e recitar as conjurações de compulsão se necessário. Uma vez que o espírito adote uma forma calma e responda ao que é perguntado, o operador deve "ouvir muito bem" - a atenção ao que o espírito comunica é tão importante quanto a capacidade de convocá-lo.


6. A despedida

O Grimorium Verum é igualmente preciso sobre o encerramento do ritual. Existe uma fórmula específica de despedida para os espíritos superiores e outra para os espíritos inferiores.

A despedida não é uma formalidade secundária - é parte integral do trabalho. Um espírito chamado e não devidamente dispensado é um problema. O texto instrui que o operador deve "proibir os espíritos em termos definitivos" e repetir as invocações de encerramento até que o espírito parta claramente.

Somente depois de confirmada a partida o operador pode sair do círculo.


Conclusão

O protocolo ritual do Grimorium Verum é um sistema coerente e completo - cada elemento conectado aos outros em uma lógica que vai da preparação do espaço à despedida final do espírito. Nenhum passo é decorativo; cada instrução existe porque alguém, em algum momento da tradição, aprendeu da forma difícil o que acontece quando é ignorada.

Trabalhar com esse sistema exige paciência, precisão e respeito - as mesmas qualidades que o texto exige dos seus instrumentos.


Referências

  • Joseph H. Peterson (ed.), Grimorium Verum (Ibis Press, 2007)
  • Stephen Skinner e David Rankine, The Goetia of Dr. Rudd (2007)
  • Aaron Leitch, Secrets of the Magickal Grimoires (Llewellyn, 2005)
  • Lon Milo DuQuette, The Key to Solomon's Key (CCC Publishing, 2006)

 

Este artigo faz parte da série sobre o Grimorium Verum do blog da A Papisa. Para explorar círculos de proteção, triângulos de arte e instrumentos rituais em MDF gravado a laser - visite nossa loja em apapisa.com.br