Categoria: Grimórios
Tempo de leitura estimado: 12 minutos


Entre os grimórios mais diretos e operativos da tradição ocidental, o Grimorium Verum - o Verdadeiro Grimório - ocupa um lugar inegável. Não é um texto para curiosos. É um manual de operação.

Enquanto outros grimórios renascentistas se cercam de camadas filosóficas e teológicas que suavizam o contato com as forças que descrevem, o Grimorium Verum vai direto ao ponto: estes são os espíritos, estes são seus poderes, estes são seus sigilos, e esta é a forma de trabalhar com eles. Sem ornamentos desnecessários.

Para o praticante sério, essa objetividade é uma das grandes virtudes do texto. Para o leigo, pode ser o que o faz parecer "perigoso" - e essa percepção, por si só, diz muito sobre o que o grimório representa.


1. Origem e história do texto

O Grimorium Verum foi publicado com a data falsa de 1517, em Memphis, atribuído a "Alibeck, o Egípcio". Esse tipo de disfarce histórico era prática comum na época: em um ambiente onde a Inquisição perseguia ativamente quem escrevia sobre magia, atribuir um texto a uma data e lugar distantes era uma medida de proteção. A data de 1517 colocaria o grimório antes da Reforma Protestante e portanto fora da jurisdição mais direta da censura eclesiástica.

A avaliação acadêmica mais cuidadosa - representada pelo trabalho de Joseph H. Peterson, que produziu a edição crítica mais completa do texto em inglês - situa a compilação do Grimorium Verum por volta de 1571, em um contexto de tradição ocultista que temia o esquecimento de seus segredos pela pressão da Inquisição.

O texto chegou ao mundo moderno em versões fragmentadas, em francês e italiano, com variações significativas entre edições. A versão de Peterson é uma das contribuições mais sérias para o estudo do texto: confronta manuscritos, anota variantes e, em muitos casos, restaura passagens que outras edições simplificaram ou corromperam.

Como observa o próprio texto introdutório: nos livros de magia medieval, ao passar de copista a copista, novas matérias eram incorporadas ao longo do tempo - tornando praticamente impossível identificar uma "edição original" no sentido que daríamos hoje. O Grimorium Verum é, nesse sentido, um documento vivo de uma tradição em movimento.


2. A estrutura do grimório

O texto é organizado em três livros mais uma seção de segredos:

Primeiro Livro - As chaves do trabalho: os sigilos e caracteres dos espíritos, as classes hierárquicas, a aparência das entidades superiores, e a estrutura dos pactos.

Segundo Livro - Os poderes dos 18 espíritos inferiores: uma lista precisa de cada entidade subordinada e o que ela pode fazer pelo operador.

Terceiro Livro - O Segredo dos Segredos: as instruções práticas completas para o trabalho ritual - como preparar cada instrumento, como realizar as aspersões e fumigações, as conjurações específicas, e a forma de invocar e dispensar os espíritos.

Seção final - Raros e Surpreendentes Segredos: uma coleção de fórmulas mágicas para efeitos específicos - adivinhação pelo espelho de Salomão, tornar-se invisível, revelar tesouros, conjurar pelo ovo, entre outras.


3. Os três poderes

A hierarquia do Grimorium Verum começa pelos três imperadores que governam o mundo infernal:

Lúcifer é o primeiro. Governa Europa e Ásia. Seus subordinados diretos são Put Satanachia e Agalierap. Sua aparência, segundo o texto, é a de um rapaz fino e elegante - e quando está irado, assume uma cor avermelhada. O grimório é explícito: não há nada de monstruoso em sua aparência.

Belzebuth governa a África. Aparece em formas variáveis: bezerro monstruoso, bode com cauda longa, ou - mais frequentemente - uma mosca de tamanho extremo. Quando irado, vomita fogo e uiva como um lobo. O nome carrega a memória de "Senhor das Moscas". Seus subordinados são Tarchimache e Fleruty.

Astaroth governa as Américas. Aparece em preto e branco, mais frequentemente em forma humana, às vezes na forma de um asno. Seus subordinados são Sagatana e Nesbiros.

Cada um desses três tem seus caracteres próprios - formas visuais específicas que funcionam como sua assinatura no plano material. O texto instrui que esses caracteres devem ser preparados antes de qualquer operação.


4. O que diferencia este grimório

O Grimorium Verum não é um texto filosófico. Não teoriza sobre a natureza dos daemons nem os justifica teologicamente. Ele instrui. E essa instrução cobre cada detalhe operativo: as horas planetárias corretas para cada trabalho, as orações preparatórias, a forma de consagrar cada instrumento ritual, os materiais a usar, os momentos a observar.

Há algo de brutal nessa precisão que outros grimórios suavizam. A Clavícula de Salomão, por exemplo, mantém um verniz solomônico de autoridade divina sobre tudo. O Grimorium Verum é mais honesto sobre a natureza do que está sendo descrito: um sistema de negociação com forças que existem fora da jurisdição da moral eclesiástica.

O texto deixa claro desde o início: "este tipo de criatura não dá qualquer coisa por nada." Não há ilusão aqui sobre a natureza transacional do trabalho.


Conclusão

Estudar o Grimorium Verum é encontrar um dos textos mais diretos da tradição de magia cerimonial ocidental - um manual que sobreviveu à Inquisição, às censuras e à fragmentação histórica para chegar às mãos de quem o busca com seriedade.

Nos próximos artigos desta série, exploraremos em detalhe a hierarquia completa dos espíritos, os sigilos e sua preparação, e a prática ritual descrita no Terceiro Livro.


Referências

  • Joseph H. Peterson (ed.), Grimorium Verum (Ibis Press, 2007) - edição crítica com comparação de manuscritos
  • Arthur Edward Waite, The Book of Black Magic and of Pacts (1898) - análise histórica dos grimórios medievais
  • Jake Stratton-Kent, Geosophia (2010) - contexto histórico da tradição goética
  • Colin de Plancy, Dictionnaire Infernal (1818) - descrições das entidades da hierarquia infernal

 

Este artigo faz parte da série sobre o Grimorium Verum do blog da A Papisa. Para explorar sigilos dos daemons, instrumentos rituais para magia cerimonial e peças em MDF gravado a laser - visite nossa loja em apapisa.com.br