Categoria: Enochiano

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Introdução

Em 1582, John Dee - matemático, astrônomo, conselheiro da Rainha Elizabeth I e um dos intelectuais mais distintos da Inglaterra elizabetana - iniciou uma série de sessões de scrying com um homem chamado Edward Kelley. Durante essas sessões, que se estenderiam por sete anos e traversariam a Inglaterra, a Polônia e a Boêmia, Kelley - operando como vidente, olhando para dentro de uma pedra de cristal ou de um espelho negro - recebeu um sistema completo de magia angélica: uma língua que os anjos chamavam de enochiana, tábuas de letras com as quais se organizava essa língua, nomes e hierarquias dos anjos que governavam os diferentes aspectos do cosmos, e instruções detalhadas para um sistema de trabalho ritual com essas forças.

O sistema enochiano que emergiu dessas sessões é, por qualquer critério, um dos sistemas mágicos mais sofisticados e mais internamente coerentes que a tradição ocidental produziu. Sua língua tem gramática e vocabulário próprios - consistentes o suficiente para serem estudados por linguistas como uma língua real, mesmo que de origem supranormal. Sua cosmologia é elaborada e precisa. Seus protocolos rituais são específicos e exigentes.

E tudo isso foi recebido, não criado - ou pelo menos assim foi vivenciado por Dee e Kelley.


1. John Dee - contexto histórico e intelectual

Para compreender o sistema enochiano, é necessário compreender o homem que o recebeu - porque o sistema reflete profundamente a mente e os interesses de Dee.

Quem era John Dee

John Dee (1527-1608) é uma das figuras mais fascinantes do Renascimento tardio. Formado em Cambridge, estudou em Louvain com matemáticos e astrônomos europeus de primeiro nível. Foi professor de matemática, navegador teórico (contribuiu para as expedições de exploração inglesas), astrônomo, astrólogo e conselheiro real - Elizabeth I o chamava de "meu filósofo".

Dee era um neoplatônico convicto - acreditava que o universo era estruturado segundo princípios matemáticos divinos, e que esses princípios podiam ser acessados e compreendidos pelo homem. Sua biblioteca em Mortlake era uma das maiores da Inglaterra - mais de 3.000 volumes, incluindo textos de filosofia, matemática, alquimia, Cabalá e magia natural.

A busca de Dee pelo sistema enochiano não era um capricho ou uma descida ao ocultismo por um homem desesperado - era a expressão lógica de sua filosofia. Se o universo era estruturado por princípios matemáticos divinos, comunicar-se com os anjos que governavam esses princípios era simplesmente a forma mais elevada de investigação filosófica disponível.

A questão da crença de Dee

Um ponto importante: Dee não era um mago "ocultista" no sentido moderno - era um cristão devoto que acreditava estar em contato com anjos genuínos. Suas sessões de scrying eram enquadradas dentro de uma cosmologia cristã: os anjos com quem comunicava eram os anjos de Deus, e o sistema que recebeu era um dom divino para a reforma espiritual da humanidade.

Essa perspectiva de Dee - cristã, angélica, reformista - está impressa no sistema enochiano de formas que o praticante moderno precisa compreender. O sistema não foi concebido como magia no sentido operativo que a maioria dos praticantes modernos usa - foi concebido como um meio de comunicação com forças divinas para fins espirituais elevados. O uso do sistema para objetivos práticos mundanos é uma adaptação posterior à visão original de Dee.


2. Edward Kelley - o vidente

Edward Kelley (1555-1597) é a figura mais controversa e mais fascinante da história do sistema enochiano. Enquanto Dee era o intelectual, o filósofo, o teólogo - Kelley era o vidente, o homem que olhava para dentro da pedra de cristal e via os anjos.

Kelley tinha um passado problemático: havia sido preso por falsificação de documentos, tinha as orelhas cortadas como punição (o que escondia usando chapéus). Antes de encontrar Dee, trabalhava como "curandeiro" e adivinho - ou o que a lei elizabetana chamava de charlatão.

Mas Kelley tinha uma capacidade extraordinária de visão - ou, pelo menos, assim parecia a Dee. Durante as sessões, ele via e ouvia as comunicações angelicais dentro da pedra com detalhes que frequentemente surpreendiam o próprio Dee pela consistência e pela coerência interna.

A relação entre Dee e Kelley foi longa, produtiva e finalmente dolorosa. Dee acreditava profundamente na autenticidade das comunicações; Kelley frequentemente expressava dúvidas - às vezes dizendo explicitamente que não sabia se o que via era real ou produto de sua imaginação. Esse ceticismo interno de Kelley é um dos elementos mais interessantes dos diários de Dee: o próprio vidente não estava sempre convencido da autenticidade do que transmitia.


3. As sessões de scrying - como o sistema foi recebido

O método de recepção do sistema enochiano é documentado nos diários de Dee com uma riqueza de detalhe que não tem paralelo na história do ocultismo ocidental. Dee registrou cada sessão - as perguntas feitas, as respostas recebidas, as visões descritas por Kelley, as instruções dos anjos - em um corpus documental que hoje ocupa múltiplos volumes.

O processo básico

A estrutura das sessões era consistente: Dee e Kelley realizavam orações extensas antes de cada sessão, pedindo proteção divina e a presença dos anjos certos. Kelley então se sentava ante a pedra de cristal ou o espelho negro (a "pedra de visão" de Dee, provavelmente uma bola de obsidiana, está hoje no Museu Britânico em Londres). Dee ficava a uma mesa separada, com papel e pena, pronto para registrar.

Kelley descrevia o que via e ouvia dentro da pedra - figuras angelicais, letras, tabelas, números, textos em língua desconhecida. Dee registrava tudo meticulosamente, às vezes pedindo que Kelley repetisse ou clarificasse o que via.

A transmissão da língua enochiana

Um dos aspectos mais notáveis da recepção do sistema foi o método pelo qual a língua enochiana foi transmitida. Os anjos não simplesmente ditaram um vocabulário - transmitiram tabelas de letras, pedindo que Dee e Kelley identificassem cada letra por sua posição em uma grade, letra por letra, trabalhando de trás para frente (da última letra para a primeira) para que o vidente não pudesse "contaminar" a transmissão antecipando o que viria.

Esse método de transmissão reversa é um dos argumentos frequentemente citados por defensores da autenticidade sobrenatural do sistema: seria um método desenhado para minimizar a interferência do vidente na transmissão.

As principais fontes documentais

Os diários de Dee foram parcialmente publicados por Méric Casaubon em 1659 como A True and Faithful Relation of What Passed for Many Years Between Dr. John Dee and Some Spirits - um texto que Casaubon publicou com intenção cética, como exemplo de auto-engano, mas que paradoxalmente tornou o sistema acessível a gerações subsequentes de praticantes.

O trabalho crítico moderno sobre os diários de Dee - especialmente de estudiosos como Deborah Harkness (John Dee's Conversations with Angels, 1999) e György Szőnyi - trouxe o contexto histórico necessário para compreender as sessões dentro do seu período.


4. As tábuas enochianas - a arquitetura do sistema

O elemento mais visualmente distintivo do sistema enochiano são as quatro tábuas - as Elemental Tablets ou Tábuas Enoquianas - que organizam as hierarquias angelicais do sistema em uma estrutura geométrica precisa.

A estrutura das quatro tábuas

Cada uma das quatro tábuas corresponde a um dos quatro elementos e a uma das quatro direções cardeais:

  • Tábua do Ar - Leste
  • Tábua da Água - Oeste
  • Tábua da Terra - Norte
  • Tábua do Fogo - Sul

Cada tábua é uma grade de letras - 12 colunas por 13 linhas - que contém dentro de si os nomes de múltiplas hierarquias angelicais. As letras não são dispostas aleatoriamente: são organizadas de forma que diferentes padrões de leitura - horizontal, vertical, diagonal - revelam diferentes nomes e hierarquias.

O que está contido nas tábuas

Dentro de cada tábua, o praticante treinado pode identificar:

Os quatro Sub-Quadrantes: cada tábua é dividida em quatro quadrantes por uma cruz central - a Grande Cruz - e cada quadrante governa um sub-elemento (por exemplo, na Tábua do Ar: Ar do Ar, Água do Ar, Fogo do Ar, Terra do Ar).

Os Cherubins: os primeiros anjos de cada quadrante, de grande poder.

Os Anjos dos Quadrantes: hierarquias de anjos que governam aspectos específicos de cada elemento e sub-elemento.

Os Serventes: anjos de hierarquia mais baixa que executam trabalhos específicos dentro do sistema.

A leitura das tábuas para identificar os nomes corretos dos anjos requer treinamento específico - não é uma habilidade que se adquire em uma tarde de estudo.

A Grande Cruz e a Tábua de Uniões

No centro do sistema das quatro tábuas está a Tabula Bonorum ou Tábua de Uniões - uma quinta tábua menor que contém os nomes das entidades que governam as interações entre os quatro elementos. Essa tábua central é rodeada pelas quatro tábuas elementais em sua disposição ritual, criando um sistema completo e fechado de hierarquias.


5. O Sigilo de Ameth e a Mesa de Prática

O Sigilo de Ameth - Sigillum Dei Aemeth, o Sigilo de Deus em Verdade - é um dos instrumentos mais importantes do sistema enochiano e um dos mais visualmente elaborados de toda a tradição cerimonial ocidental.

É um círculo de aproximadamente 22 cm de diâmetro (especificado pelos anjos como 9 polegadas) com uma elaborada inscrição de nomes divinos, letras e figuras geométricas que organizam a hierarquia do sistema enochiano em sua totalidade. O original de Dee - feito de cera de abelha, conforme instruído - está preservado no Museu Britânico junto com outros instrumentos rituais de Dee.

O Sigilo de Ameth é posicionado no centro da Mesa de Prática - a superfície de trabalho ritual do sistema enochiano - sobre a qual a pedra de visão é colocada durante as sessões de scrying. As quatro tábuas elementais são posicionadas nos quatro pontos cardeais ao redor do Sigilo.

A Mesa de Prática

A Mesa de Prática (Table of Practice nos diários de Dee) é uma mesa específica descrita pelos anjos com medidas precisas, inscrita na superfície superior com um arranjo de nomes e figuras que complementam o Sigilo de Ameth. Dee construiu essa mesa conforme as instruções recebidas.

A combinação de Mesa de Prática + Sigilo de Ameth + quatro tábuas elementais + pedra de visão cria o espaço ritual completo do sistema enochiano - o equivalente funcional do Círculo de Salomão + Triângulo de Arte no sistema goético.


6. Os Aethyrs ou Aethirs

Além das quatro tábuas elementais, o sistema enochiano recebido por Dee inclui os 30 Aethyrs - regiões ou planos de existência organizados em uma hierarquia que vai do mais baixo (o 30º Aethyr, chamado TEX) ao mais elevado (o 1º Aethyr, chamado LIL).

Os Aethyrs são trabalhados através de um método específico de scrying chamado "visão nos Aethyrs" - o operador pronuncia a chamada do Aethyr pretendido na língua enochiana e então realiza uma sessão de scrying dentro daquele Aethyr, recebendo visões e comunicações dos anjos que o governam.

O trabalho com os Aethyrs foi sistematizado por Aleister Crowley no texto The Vision and the Voice (Liber 418) - resultado das próprias sessões de Crowley com os Aethyrs realizadas no deserto argelino em 1909. O texto de Crowley é uma das obras mais visionárias e perturbadoras da literatura mágica ocidental - e continua sendo a referência principal para o trabalho prático com os Aethyrs.


7. A Golden Dawn e a sistematização do sistema enochiano

O sistema enochiano recebido por Dee permaneceu relativamente inacessível por séculos após a morte de Dee - os diários eram conhecidos mas raramente trabalhados. Foi a Ordem Hermética da Golden Dawn, no final do século XIX, que sistematizou o sistema enochiano para uso ritual prático.

As adaptações da Golden Dawn

MacGregor Mathers e William Wynn Westcott, trabalhando com os diários de Dee e com sua própria estrutura cabalístico-teúrgica, desenvolveram um sistema de uso das tábuas enochianas que integrava o material original de Dee com a cosmologia cabalística da Golden Dawn.

As principais adaptações incluíam: a reorganização dos anjos das tábuas de acordo com as correspondências cabalísticas da Árvore da Vida, a criação de rituais específicos para trabalhar com cada tábua e cada hierarquia angelical, e a integração do sistema enochiano com o sistema de iniciação e desenvolvimento da Golden Dawn.

Essas adaptações tornaram o sistema mais acessível - mas também o modificaram significativamente em relação ao original de Dee. O praticante moderno que trabalha com o "sistema enochiano da Golden Dawn" está trabalhando com algo substancialmente diferente do sistema original de Dee.

Dee versus Golden Dawn - qual usar

Essa questão divide os praticantes contemporâneos. Os "dee-purists" - praticantes como Benjamin Rowe, Patrick Dunn e Geoffrey James - argumentam que o sistema da Golden Dawn distorceu o original de Dee e que trabalhar com o sistema de Dee na íntegra é superior. Os praticantes da tradição da Golden Dawn argumentam que a sistematização da Ordem tornava o sistema operativamente mais coerente e mais seguro.

Não existe uma resposta universal - a escolha depende dos objetivos do praticante, de sua formação e de com qual cosmologia ele ressoa mais. O que é importante é compreender a diferença entre os dois e não os tratar como idênticos.


8. A questão da autenticidade - foi revelado ou inventado?

Nenhuma discussão séria do sistema enochiano pode evitar a questão que intriga estudiosos e praticantes desde o século XVII: o sistema é genuinamente de origem angélica, ou foi criado - consciente ou inconscientemente - por Dee e Kelley?

O argumento pela autenticidade sobrenatural

A complexidade interna do sistema - especialmente a língua enochiana, com sua gramática consistente e seu vocabulário de centenas de palavras - é frequentemente citada como evidência de que o sistema não poderia ter sido fabricado conscientemente por Dee e Kelley. A língua tem regularidades gramaticais que persistem através de textos recebidos em sessões diferentes, anos apart - o que sugere uma fonte consistente além da memória e da imaginação dos dois homens.

A coerência interna das hierarquias angelicais - que se mantém mesmo em detalhes que Dee e Kelley provavelmente não estavam monitorando conscientemente - é outro argumento frequentemente citado.

O argumento pelo produto humano

Estudiosos céticos - incluindo Donald Laycock, que estudou a língua enochiana como linguista - argumentam que a língua enochiana, embora internamente consistente, tem características que a tornam improvável como língua natural: vocabulário limitado, estrutura altamente dependente do inglês, ausência de muitas características que aparecem em línguas naturais humanas.

A perspectiva psicológica - de que Kelley estava acessando conteúdo de seu próprio inconsciente, organizado pela mente extraordinária de Dee - é talvez a mais amplamente aceita entre estudiosos modernos que levam o fenômeno a sério sem aceitá-lo literalmente.

A posição do praticante

Para fins operativos, a questão da autenticidade é menos importante do que a questão da funcionalidade. O sistema enochiano funciona como sistema ritual - os praticantes que o trabalham com seriedade relatam experiências e resultados consistentes com o sistema. Se isso se deve à intervenção genuína de anjos ou à ativação de capacidades humanas profundas através de um sistema coerente de símbolos e práticas, é uma questão filosófica que cada praticante resolve de acordo com sua própria visão de mundo.


9. Erros mais comuns na abordagem ao sistema enochiano

Começar pelo sistema enochiano sem base sólida em magia cerimonial. O sistema enochiano é tecnicamente exigente - presume familiaridade com protocolos rituais básicos, com o trabalho de scrying, e com uma cosmologia angelical. Não é um sistema para iniciantes absolutos.

Confundir o sistema de Dee com o sistema da Golden Dawn. São sistemas diferentes. Estudar um sem compreender o outro - e especialmente tratar os dois como idênticos - é trabalhar com um mapa impreciso.

Pronunciar as chamadas enochianas sem treinamento. A língua enochiana tem um sistema fonético específico. Pronunciações incorretas não são simplesmente ineficazes - são imprecisas em relação ao sistema que estão tentando ativar.

Trabalhar com os Aethyrs superiores sem ter trabalhado com os inferiores. Os Aethyrs têm uma progressão: do 30º ao 1º. Tentar trabalhar com os Aethyrs superiores sem ter passado pelos inferiores é análogo a tentar subir os degraus superiores de uma escada sem ter passado pelos inferiores.

Negligenciar os diários de Dee como fonte primária. Toda a tradição de estudo e prática do sistema enochiano que não usa os diários de Dee como ponto de referência está trabalhando em graus variados de afastamento do sistema original.


Conclusão

O sistema enochiano de John Dee e Edward Kelley é um dos fenômenos mais extraordinários da história do ocultismo ocidental. Seja qual for a origem última do sistema - divina, psíquica ou simplesmente humana - sua complexidade, coerência interna e poder de evocar experiências profundas nos praticantes que o trabalham com seriedade o tornam um dos sistemas mágicos mais ricos e mais exigentes disponíveis.

Estudá-lo com a seriedade que merece - começando pelos diários de Dee, compreendendo a diferença entre o sistema original e as adaptações subsequentes, desenvolvendo as habilidades de scrying e de trabalho com a língua enochiana progressivamente - é um projeto de anos, não de semanas.

Mas poucos projetos no campo da magia cerimonial são mais recompensadores.


Referências para aprofundamento

  • Deborah Harkness, John Dee's Conversations with Angels (1999) - estudo histórico definitivo das sessões de Dee
  • Méric Casaubon (ed.), A True and Faithful Relation (1659) - publicação original dos diários de Dee
  • Geoffrey James (ed.), The Enochian Evocation of Dr. John Dee (1984) - seleção dos diários com comentário operativo
  • Aleister Crowley, The Vision and the Voice (Liber 418) - trabalho com os 30 Aethyrs
  • Israel Regardie, The Golden Dawn (1937) - sistema enochiano da Golden Dawn
  • Benjamin Rowe, A Practitioner's Guide to the Magical Record - abordagem dee-purista ao sistema
  • Donald Laycock, The Complete Enochian Dictionary (1978) - estudo linguístico da língua enochiana
  • Lon Milo DuQuette, Enochian Vision Magick (2008) - introdução acessível ao sistema com perspectiva histórica

 

Este artigo faz parte da série sobre Enochiano do blog da A Papisa. Para explorar as Tábuas Enochianas, o Sigilo de Ameth e instrumentos rituais para o sistema enochiano em MDF gravado a laser - visite nossa loja em apapisa.com.br